Le Entrevista a Mário Valente por Luísa Baptista

É noite. O Bairro Alto está calmo, a Bica com algumas pessoas. Na descida cruzam-se caras conhecidas nesta cidade-elástico por vezes grande e muitas demasiado pequena. “Vamos ao Lounge, há lá um concerto”, frase dita que podia estar escrita numa daquelas paredes. Na Le Cool muitos desses concertos já foram anunciados, primam pela qualidade, pela actualidade: são escolhasde autor. Fomos tentar saber que história tem este autor, quem faz este trabalho e descobrimos uma simpatia de pessoa, 38 anos e tão perto das novas gerações que poderia até nem ter idade.  

Mário Valente faz jus ao nome, arrisca nas suas escolhas que se têm revelado uma ilha nesta cidade. Imaginem se não houvesse Lounge. Onde iríamos no fim daquela calçada enorme? Onde teriam tocado de porta aberta os Rainbow Arabia, Maria Minerva e Los Explosivos? Que histórias tem este sitío, quem é a pessoa que há 12 anos mantém esta casa na rota de várias gerações? Uma viagem e tanto onde se cruza a música com cinema, os ciclos recicláveis e a cidade de Lisboa.

Fala-nos um pouco sobre ti. 

Nasci em Campo de Ourique e vivo em Campo de Ourique. A minha formação é em Design Gráfico no IADE, depois estive alguns anos a trabalhar como designer e comecei em dj em part-time pela piada da coisa em 94, que foi quando assumi residência no Johnny Guitar. Tinha 21/22anos. Depois foi correndo bem e fui fazendo cada vez mais noites. Às tantas e um pouco por acaso, estava sempre a saltar de empresa em empresa de design e a última onde eu estive acabou há meia dúzia de anos e eu decidi não continuar a procurar e dedicar-me só ao djying e aos bookings, o que me ocupava muito tempo, na realidade.

E nessa altura, em 94 que tipo de som se ouvia na cidade e no Johnny Guitar, qual era a tendência? 

Se uma pessoa pensa na cena de Lisboa como vês hoje em dia, não tinha nada a ver. Na altura não tinhas assim um som específico ou não notavas muito isso. Tinhas o Kremlin e o Frágil a passar House, mas depois a nível de barzinhos tinhas um ou outro no Bairro Alto com umas coisas mais modernas, o Kirk com os breakbeats e o inicío do drum n' bass, etc. No Johnny Guitar era só Punk,Hardcore e Metal à brava. Eu passava isso e Trash Metal.

Aos 15 anos, quais eram as tuas referências? Penso que é uma idade importante, em que se absorve muitas das coisas que ficam até tarde. 

Eu aos 15 anos era um puto muito peneirento que passava a vida na Cinemateca a ver cinema francês. Recusava tudo o que eu tinha gostado até aí, o cinema mais comercial que é normal uma pessoa gostar naquela idade, eu achava que ”eu agora não posso dizer que gosto disto”, era assim um pedante daqueles mesmo com a mania que era independente e que de repente começa a ouvir as coisas mais esquisitas, experimentais e que começa só a ver cinema diferente. O que vale é que isso depois passou, rapidamente. Aí aos 17/18 anos comecei a gostar outra vez de tudo, sem esse tipo de preconceito. Mas acho que é normal essa fase.

Então foste designer, tens a música e tens o cinema. Como é que o cinema entrou na tua vida? 

O cinema começou quando comecei no IADE a fazer cinema de animação com os amigos. Depois parei e comecei a escrever sobre cinema em várias publicações.

E um filme que te tenha marcado? 

Posso dizer um grupo de filmes que são uma referência para mim mas é daquelas coisas... Mas o Female Trouble do John Waters é um daqueles filmes que eu estou sempre a ver. O Feiticeiro de OZ que é assim uma escolha óbvia, mas pronto.

Tens um blogue de cinema. Fala-nos um bocadinho disso.

Sim, Zona Negra. Isso foi uma extensão de uma secção que eu tinha na DVD Review, que era uma revista sobre lançamentos de DVD. Escrevia normalmente sobre os lançamentos nacionais e depois tinha uma página dedicada ao cinema série B, de Terror, Blaxploitation, Erótico, etc que se chamava Zona Negra precisamente por causa da história das Regiões 1,2,3 códigos dos Dvds onde podem ser reproduzidos. E ali em vez de região, era a Zona Negra, havia uma outra secção que era a Zona Jade que era sobre cinema oriental. Entretanto a revista fechou, mas tomei-lhe o gosto de escrever especificamente sobre aquilo que sempre foi a minha pancada principal, assim um cinema mais “ao lado”. Como eu vejo um filme todos os dias, mal acordava escrevia um textinho pequenino e então tenho lá centenas e centenas de textos sobre filmes. Às tantas deixei de ter tempo. Agora é um arquivo com umas centenas boas de filmes analisados.

E tempo livre, existe? 

Sim, faço questão de ver um filme por dia, sempre que consigo. Excepto nas noites em que trabalho mas, quando estou de folga é um filme por dia e sempre foi desde puto. No tempo livre que vou tendo, bebo vinho a ver um filme.

Acerca do revivalismo na música, o que achas deste loop contínuo em que se vai buscar aos anos 80, aos 70, 60, agora é o dance floor dos 90. E o rock dos anos 90 também. Não achas que já chega de revivalismo?

Eu curiosamente acho que esta última década foi a década de todos os revivalismos; no inicío de 2000 foi a revitalização do final de 70, início de 80 com o Electroclash a pegar no cruzamento do New Wave com o Punk, e depois foi-se evoluindo. A década foi aumentando e foi-se chegando aos anos 90. Obviamente que vai sempre continuar, até que se vai chegar a um ponto em que deixa de fazer sentido fazer um revivalismo do revivalismo.

Até porque se perde informação pelo caminho, muitas vezes quem o faz não conhece muito bem as raízes dessas fontes.

Mas eu não vejo isso como perda de informação, interpreto antes como oportunidade para assumir uma linguagem nova ali dentro, seja consciente ou não. Como dizes, pode ser até por falta de informação e é isso que acaba por fazer que as coisas sejam diferentes porque as abordagens não são as mesmas.

Muitas bandas que usam essas sonoridades desconhecem ao que é que elas se referem, que tipo de vivências, que tipo de épocas, não sabem essa parte da história. E pegam só porque gostam. 

E muitas vezes pegam só pela imagem. Enquanto que na altura era uma coisa que tinha a ver com um deslumbramento próprio da época e era uma coisa genuína, que vinha da rua, agora é pela imagem... as pessoas chegam lá ou pela roupa ou pela imagem dos vídeos. Descontextualizam a coisa. Mas respondendo mais directamente, eu acho que se está a chegar ao fim do ciclo reciclável. Porque não vais poder reciclar a partir dos anos 90. Os movimentos estéticos principais que aconteceram na música, aconteceram todos até ao final do anos 90, a partir daí começou-se com as reciclagens. Não faz sentido daqui a 10 anos reciclar-se 2005 por exemplo, porque já era uma reciclagem de... Às tantas podes argumentar: “ok, eu não estou a fazer uma revisitação de 2005 mas sim o que em 2005 já se estava a revisitar”, por isso já não é uma reciclagem pura, mas uma coisa nova. Por exemplo agora o que está na moda é o kraut rock alemão e toda a cena cósmica dos anos 70 está mais na moda do que nunca esteve, mais do que na altura, que era uma coisa underground e agora está a rebentar seriamente. Mas acho que as pessoas também se estão a cansar disso. E eu noto isso com as bandas nacionais que vão aparecendo aqui. Os portugueses sempre foram muito dados àsinfluências, Nos anos 80 tinhas trinta mil bandas a copiar os Joy Division e no inicío dos anos 90 ainda estavam a copiar os Joy Division. E agora não. Agora vês que há realmente miúdos que estão a seguir o seu próprio caminho, logo à partida.

E sendo assim, que julgas tu que vão ser as novas tendências? 

A nível mainstream vão sempre haver as festas anos 80/90 mas a nível cíclico de grandes movimentos que interessam, ou seja, aquilo que faz a coisa andar para a frente não há mais para onde ir. Acho que as pessoas vão encontrar o seu próprio caminho e que o futuro é mesmo aliberdade. Parece assim um bocado utópico (risos) mas a nível cultural se tem de se ir por algum sitío, é por aí.

A nível do panorama nacional, sobre aquilo que se produz hoje me dia, que situações encontras? 

Há quem diga que nunca se fez tão boa música como agora, há quem diga que antigamente é que era bom. Acho que as pessoas se calhar falam isso porque sentem falta das bandas que nos anos 80 tinham outro tipo de exposição, mesmo as bandas mais independentes como os Pop Dell' Arte, os Mão Morta e os Mler Ife Dada acabavam por ter muito tempo de antena na televisão. Os Pop Dell'Arte passavam em horário nobre no intervalo do Domingo Desportivo! Hoje em dia isso nunca aconteceria, mas isso tem a ver com a exposição, porque há muita coisa a acontecer e hoje em dia as bandas não têm tanta exposição. Agora, é um facto que neste preciso momento há bandas boas como nunca houve a nível de quantidade. Nunca houve um período assim de coisas boas a acontecer.

E lá fora?

Repete-se a mesma coisa que aqui no sentido que há muita oferta. E como muita oferta há muito mais coisas boas do que havia antes. Mas são bandas que muitas vezes não conseguem marcar o seu tempo da mesma forma que havia antigamente.

Pois, porque há a questão da duração que hoje em dia é muito curta e parece dininuir cada vez mais. É rara a banda que consegue lançar um segundo ou terceiro álbum e conseguir a mesma adesão do público e dos media.

Mas muitos projectos depois reinventam-se. Acabam, depois começam com outro nome, ou viram Djs, quer dizer, a coisa vai-se reciclando.

Na tua actividade de programador do Lounge, como e onde vais buscar tanta informação? 

Olha, eu passo muito menos tempo na net à procura de bandas do que devia. Não passo mesmo tempo quase nenhum. Vou uma vez por semana ver os discos que saíram nas lojas online de venda, vou vendo algumas publicações online, vejo o que se destaca. Vejo a Pitchfork como quase toda agente porque é um site mesmo grande, vai um bocadinho a todos os géneros, com algum controlo de qualidade. Não é só as redes online, há a rede de amigos, outros Djs amigos que me mostram coisas e que eu mostro a eles, eu estou sempre a aprender.

A verdade é que o Lounge tem uma ementa musical excepcional com bandas que têm uma sonoridade muito actual, que não se vê muito por aí.

Há mais sítios com uma ementa assim, a grande diferença é que aqui é gratuito. São escolhas que também são influenciadas pelo meu lado de Dj que me leva a estar constantemente a comprar discos novos e à procura de coisas novas.

Mas as escolhas que fazes fazem uma ponte com as novas gerações, consegues de alguma forma captar os públicos jovens. Como captas essas influências?

Fico muito contente por dizeres isso. Sobretudo é gosto pessoal e é uma selecção que tenha a ver com a casa mas depois também há uma coisa muito simples. As bandas que eu ando à procura são bandas que ainda não cresceram muito, logo como bandas novas e que estão a começar, os miúdos conhecem.

Qual é a história do Lounge e como é a tua história dentro do Lounge?

São histórias completamente paralelas. Por causa de amizades e de relações amorosas de outros amigos, acabei por conhecer os donos do Lounge quando eramos todos miúdos, isto no inicío dos anos 90. Começou tudo em Hamburgo, eu andei na escola alemã, tinha amigos alemães e portugueses e havia uma grande relação com outros alemães que viviam em Portugal. Um dos sócios que vivia em Hamburgo e que tinha um bar resolveu vir para cá, vendeu o bar dele lá, abriu este. Eu fui o Dj da primeira noite e começou logo desde aí, em Abril de 99.

Nos tempos de hoje em que toda a gente assume vários papéis, têm blogues, são djs, fotógrafos, etc. Como achas que na música esta invasão têm resultado, no que toca aos Djs particularmente? 

Hoje em dia toda a gente é tudo. Acho que cada coisa no seu lugar. Uma pessoa que joga à bola aos domingos com os amigos não vai meter no currículo a dizer que é futebolista, não faz sentido, não é? Da mesma forma que uma pessoa que te dá uma aspirina para te curar a dor de cabeça, não vai dizer que é médico. Da mesma forma que um tipo que vai pôr música numa festa particular dos amigos e leva o portátil, não pode começar a dizer que é Dj, como quem escreve num blogue não é automaticamente jornalista. Deve haver uma sensibilidade da parte das pessoas e fazer coisas que o justifiquem. Senão é simplesmente fachada.

E para finalizar, o que te irrita mais quando estás a pôr música? 

Quando estou concentrado para fazer uma sequência de dois minutos e vem um amigo que já não vejo há algum tempo e diz “então conta coisas” (risos). Ou quando pensam que eu sou uma jukebox e tenho que obeceder ao gosto de cada um.


Entrevista por Luísa Baptista
Fotografia por Nelson Rodrigues - LINHA (En)CARNADA

__ __

* Originalmente publicada a 29 de Setembro de 2011, na Le Cool Lisboa * 307

Sem comentários:

Enviar um comentário