Le Entrevista aos Capitães da Areia por NunoT


Os Capitães da Areia vêm de outro tempo e de outro espaço. Um mundo onde reina uma espécie de boa disposição universal e constante no tempo. Há alegria, muito sol, calor e praias por todo lado. Aliás, o mundo dos Capitães da Areia é uma praia gigante sem saída e na qual o sol nunca se põe. E claro, muita onda para surrar ou simplesmente para nos deixarmos molhar até ao tornozelo. No mundo dos Capitães tudo é alegre, colorido, democraticamente perfeito. Vêm do tempo em que a maior preocupação era o fim de um amor de verão, e um espaço onde todos são Capitães de tudo. Até o último dos marinheiros é capitão no seu solo. Afinal se o indomável mar não pertence a ninguém, a terra, essa é de todos.

A Le Cool quis visitar a praia dos Capitães, onde, claro, não há telefones nem grandes sinais da tecnologia. Por isso mandaram-me à frente num barco à vela sem capitão, nem remos. Sem saber como, lá cheguei, e sem perceber bem porquês quatro Capitães me esperavam na praia de onde me acenavam frenética, quase histericamente. Lisonjeado e excitado por tão efusiva ainda que misteriosa recepção, visto que não anunciara a minha chegada, coloquei o barco de vento em popa para acelerar o meu encontro com os Capitães. Percebi tarde o significado dos seus acenos, e não pude evitar um brutal embate num tramado de um rochedo que mal se via em hora de maré cheia. Mas se há bom sítio no mundo onde encalhar é na praia dos Capitães da Areia. Há música fresca todos os dias e a boa disposição salta de acorde em acorde, de batuque em batuque.


É contagiante e raramente se consegue evitar um pé a abanar com o calcanhar enterrado na areia. Com o passar dos dias, entre músicas, canções, sol, ondas e raparigas, entrevistei cada um e todos eles. Agora envio esta mensagem numa garrafa fechada de um velho licor desencantado na preciosa reserva dos Capitães, na esperança que a Le Cool um dia a venha a receber e publicar. A quem a encontre peço que a entregue com urgência na redação. E já agora digam ao editor que fico por cá uns tempos. Arranco quando os Capitães decidirem parar a música. Até lá muita saúdinha a todos aí na nublada Lisboa.

Quem são e de quando e de onde vêm Os Capitães da Areia? Falem-nos um pouco do quarteto de pessoas por detrás dos músicos.

Capitão António: Sou… não consigo falar sobre mim. Os capitães são quatro rapazes de Lisboa e arredores muito diferentes mas com ideias da pop, da praia e da vida muito parecidas.

Capitão Pedro: Sou a voz e a bandeira. Nasci em Coimbra mas nunca nadei no Mondego. Vivi a adolescência em Viseu, Senhora da Beira. Decidi vir viver para Lisboa com uma mochila às costas. Hoje tenho uma casa mas mantenho-me na adolescência com uma idade incerta. Sonho durante o dia e escrevo durante a noite.

Capitão Tiago: Sou de Lisboa mas tenho pena de não ter nascido ao pé do mar. Por isso sempre que posso vou até ele. 1989 foi o ano em que decidi nascer. Componho canções, oiço muita música, sou aficionado da sétima arte, leio variados livros desde biografias, romances russos a poesia. Quero encontrar a luz nas coisas do dia a dia e a melhor maneira que o sei fazer é compondo canções.

Capitão Vasco: Sou um jovem marinheiro apaixonado pela física do mundo.

Quando foi e como foi que nas vossas vidas entrou a música que se viria a transformar numa carreira (de cada um)? E como é que os vossos percursos musicais se cruzaram?

Capitão António: A música sempre foi uma constante, desde tenra idade que ouvia os discos dos meus pais (e esses discos acabam por estar presentes), não posso considerá-la a minha carreira. Os percursos cruzaram-se através de uma demanda pelos capitães certos e muita sorte.

Capitão Pedro: Passei toda a infância a ouvir os meus pais cantar e a ouvir o que eles ouviam. Fui educado musicalmente por um maestro, por um coro e por um pintor. Vim para Lisboa em 2008 porque queria formar uma banda pop. Certo dia, estava no Frutalmeidas e vi um tipo roubar uma melancia. Fui tentar apanhá-lo… era o Vasco. O António e o Tiago estavam ali perto. Ficámos bons amigos.

Capitão Tiago: A Música não entrou na minha vida, ela já existia quando era pequeno e ouvia o meu Pai a tocar piano. Mais tarde comecei por imitar os meus irmãos a tocar guitarra e bateria. Passado algum tempo comecei a criar música. A voz saía-me pela guitarra e por isso nunca senti necessidade de cantar. Fui para os Capitães através da busca do Capitão Pedro por um guitarrista que o único requisito era dizer que sim. Hoje percebo que resultou mas tinha tudo para falhar. Não nos conhecíamos e tínhamos de compor 3 canções para um concerto um mês a seguir.

Capitão Vasco: Foi o Juno-60 que uniu os Capitães em volta de um desafio de fazer Pop em Portugal.

Qual foi o primeiro disco que compraram (de cada um)?

Capitão António: Não faço ideia...talvez um do coro da minha escola.

Capitão Pedro: Madredeus – ‘Existir’. Mas o primeiro que me ofereceram foi o dos Cartoons. E sim, para ser uma resposta podre, ouvi-o vezes sem conta.

Capitão Tiago: Tenho uma memória fraudulenta mas penso que foi aos 10 anos, um disco ao vivo dos Blink-182.

Capitão Vasco: Louis Armstrong and the good book

Acho que há uma tendência para associar a estética musical dos Capitães da Areia à música dos Heróis do Mar. Confirmam que os Heróis são uma banda que vos inspira e criativamente influencia? E quem mais ou que outras bandas nacionais ou estrangeiras o fazem?

Os Heróis do Mar inspiram qualquer português minimamente culto. Eles souberam marcar a geração deles. E nós queremos marcar a nossa. Mas o que nos inspira musicalmente é o Diblo Dibala, os Sea and Cake, Duran Duran, Clube Naval e Beatles.

Como se desenvolve o vosso processo criativo? Letra primeiro ou as palavras vão rolando sobre a música num ensaio?

Há várias soluções criativas. O Capitão Tiago chega a um ensaio com uma ideia geral da canção já estruturada e começamos todos a ensaiar em cima disso, posteriormente o Capitão Pedro escreve e canta esses versos para cima dessa malha sonora. Ou então, juntam-se os dois e nasce guitarra e voz em simultâneo. As palavras surgem em cadernos nos serões em casa.

Qual (onde foi e quando) o vosso melhor concerto? E o pior?

No final de 2011 em Lisboa, tanto o concerto que demos a convite da Musica Portuguesa A Gostar Dela Própria na festa que organizaram, como o concerto de apresentação do nosso primeiro disco ou o concerto da primeira parte da comemoração dos trinta anos do GNR, no Coliseu dos Recreios… são três que recordamos com muita alegria. O pior é quando no final dos concertos temos de desmontar tudo e levar para a carrinha. Nunca nos apetece.

Passam férias juntos? Para onde gostam de ir?

Capitão António: As férias são o tempo de descanso uns dos outros (de resto andamos sempre juntos) com excepção de duas ocasionais viagens à Riviera e Marrocos, com todos.

Capitão Pedro: Sim. Gostamos muito de ir para as Berlengas fazer retiros musicais. Mas no deserto em Marrocos já surgiram canções também.

Capitão Tiago: Passamos parte das férias juntos. Costa alentejana, Marrocos. Qualquer local no mundo que tenha sol, mar e raparigas de fato de banho.

Capitão Vasco: Para estâncias balneares onde se possa comer um gelado na praia e passear na marginal à noite.

Qual a vossa melhor recordação juntos sem música?

Capitão António: Um fim de semana muito especial em Viseu.

Capitão Pedro: As panquecas gnocchi.

Capitão Tiago: Temos muitas, uma foi quando cantámos para uma senhora que vendia castanhas. Acabou por nos oferecer.

Capitão Vasco: Jogos de Corrupção.

Como é? Fazer-se parte de uma banda tem-vos trazido sorte junto das miúdas? Aconselham vivamente a todos os adolescentes de tentarem a sua carreira musica como fertilizante a uma saudável e vivaz descoberta das emoções e sentimentos?

Nós não procuramos a sorte. Temos muito amor para dar. E não aconselhamos a formarem bandas para ver corações sorrir mas, por sua vez, aconselhamos a descoberta de sentimentos e provocar emoções antes de formar uma banda.

Onde gostavam de fazer o vosso concerto em 2019 de título "Os Capitães da Areia - 10 anos a navegar em terra firme"? E se pudessem, quem gostariam de convidar ao palco a tocar um tema com os capitães?

Capitão António: Ou num palco gigante em Maputo ou no Portugal dos Pequenitos. Como convidado o Diblo Dibala!

Capitão Pedro: Num vulcão. Gostava de ter lá a Companhia Nacional de Bailado a embelezar todo o palco ardente connosco e com as nossas canções.

Capitão Tiago: Luanda. O convidado seria o Johnny Marr ou o Diblo Dibala.

Capitão Vasco: Às cinco da tarde, num vale algures entre Lisboa e Cascais. Com sol e calor convidaríamos quem aparecesse para se juntar a nós.

Uma pergunta que invariavelmente faço a todos os músicos e bandas portuguesas: Como é fazer música em Portugal no auge (esperemos) da crise que assola o país em pleno 2012? E lá fora seria melhor?

Honestamente, a crise não nos interessa. A realidade é esta e o país em que vivemos é este. E somos felizes aqui. Portanto resta-nos continuar a cantar e a fazer dançar as almas que se meterem à nossa frente.

E por fim, como é a Lisboa dos Capitães, entre o Lumiar, o Campo Grande e o Chiado? Para além destes cantos de afecto musical, quais são os vossos cantos preferidos na cidade do Sol?

Capitão António: O Cais do Sodré (que é o melhor sítio para pescar) e as Portas do Sol são-nos muito queridos também.

Capitão Pedro: Jardins com pavões, Terreiro do Paço, as Avenidas e o Frutalmeidas.

Capitão Tiago: Calçada do Duque, Rua do século, Avenida da Liberdade, cinema São Jorge, Avenida de Roma, Gulbenkian, Jardim das Galveias, etc...

Capitão Vasco: As Portas do Sol, o Jardim tropical de Belém

Obrigado e tudo a correr em alta com os Capitães e as suas aventuras por mares antes não navegados!

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Capitães da Areia
www.myspace.com/oscapitaesdaareia

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